Ontem apeteceu-me Ruy Belo...

(...)
Tragam-me tudo menos a infância a
infância é um lugar de sofrimento
o mais secreto sítio para a solidão
Mas se é tudo o que têm para dar-me
a luta corpo a corpo contra cada coisa
quer ela assuma a viva víbora de um rio
quer se congregue ou se corrompa como uma maçã
quer ela enfim adopte a pérfida estratégia da manhã
que me falem do mundo nunca da infância
ou então que me dêem a infância hoje em dia
e jamais hoje aquela infância então
(...)

Ruy Belo, do poema Agora o Verão Passado

Deep Blue de Rodrigo Leão...viciante

Interpretação de Sónia Tavares (The Gift)

Amor é sem ensaio...

© Keith Carter, "Mud Lovers"

«(...) Nas outras Ligações Perigosas, a marquesa de Merteuil censura ao visconde de Valmont o facto de as cartas dele serem demasiado perfeitas, demasiado lógicas para conterem as palavras de um verdadeiro amante, cujas ideias são decerto desconexas, a quem a frase perfeita fatalmente escapa. A linguagem tropeça no amor, o desejo carece de articulação (...) » . In Ensaios de Amor de Alain de Botton, p.35.

Sonho com sonhos....

Li algures algo do tipo: Se existissem sonhos à venda, qual comprarias? Ainda não sei a resposta...

Quero uma noite branca....

" «Noites brancas», noites do início do Verão em que não escurece, fenómeno observado em ambos os hemisférios a partir dos 60 graus de latitude norte e sul (em Petersburgo vai de 11 de Junho a 2 de Julho). A páginas tantas de Noites Brancas: «As minhas noites acabaram de manhã.» A noite é o sonho, o dia é vida, a noite branca imita o dia; o herói de Noites Brancas vive no sonho (é a sua alienação), vive de noite, por isso precisa que a noite lhe seja branca, para imitar o dia, que o sonho lhe seja vida; por isso as noites dele acabam de manhã, por isso a vida dele acaba de manhã, com a realidade."
Filipe Guerra

Como é que me transformo em gato?

Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.

Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.

És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.
Fernando Pessoa

Sabia bem...

...um parêntesis...
...com esta vista lá dentro...

Recordar o que se quer esquecer...

«Heródoto imaginou os historiadores como guardiães da memória, a memória de feitos gloriosos. Eu prefiro ver os historiadores como os guardiães de factos incómodos, os esqueletos no armário da memória social. Existiu em tempos um oficial chamado Recordador. O título era na realidade um eufenismo para colector de impostos, o trabalho do oficial consistia em recordar às pessoas aquilo que elas gostariam de esquecer. Essa é uma das funções mais importantes do historiador.» Peter Burke, in O Mundo como Teatro: Estudos de Antropologia Histórica, p.251

Os Provérbios Flamengos (1559) de Bruegel

...mais de cem provérbios foram identificados neste fantástico quadro que representa o mundo às avessas...

Transmutação


Nascemos carne. E a cada dia
Nos vamos transformando em sonho.
Há sempre um patamar tristonho
Na escada em que antes não havia.

Há sempre um quarto em que vivemos
E nunca vimos. Sempre há um morto
Que bate à porta. Há sempre um porto
Que jamais houve e de onde viemos.

Há uma manhã cinza na feira
Que não se acaba há muitos anos.
Há uma mulher, nua entre panos,
Que não é nossa a vida inteira.

O tempo espera, inalterado
Como um licor, que nós subamos
Por ele abaixo, nós que vamos
Descendo-o acima em passo ousado.

Atrás há a aurora. À frente o nada.
No meio a confusão das luas.
Ah! quem voltasse às mesmas ruas
Em senso inverso, até a entrada.

Quem desse as costas à saída
Certa e voraz, e, dessa sorte,
Fosse afastando-se da morte
Até a primeira hora da vida

E seu mistério, e se encarnasse
Nos seus eus idos, e fugisse
Por si acima, até que ouvisse
O choro antigo, e ainda o passasse.

Nascemos carne, e ao sonho vamos.
Somos o fio que desfaz
Toda a tapeçaria, mas
Quem é que o puxa, nem sonhamos.

Vamos fazendo-nos de ar
De crianças rijas que já fomos,
Vamos como explodindo em gomos
De ser, um fruto a se espalhar.

Nossos amigos são de vento
Cada vez mais. As nossas casas
Grãos que o sol doura. Soam asas
No nosso cofre mais sedento.

Para isso apenas nos gerastes,
Para ser sonho, mães de sonho.
Há sempre um pássaro medonho
Nos nomeando entre umas hastes.

Há sempre um baile de sumidos
Na íntima praça inexistente.
Há um branco sol sempre presente
Na noite em que vamos perdidos.

Há um rosto cruel que nos exorta.
E escadas. E a manhã na feira
Que vai durando a vida inteira.
Há o patamar. E um beijo. E a porta.

Alexei Bueno

Soneto da fidelidade

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vive-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espelhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Vinicius De Moraes

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