Tão bem que fica aqui o nevoeiro

O nevoeiro sobre a Pena...
...a preencher a distância entre as árvores...
...e a reflectir-se em lagos encantados.

Merry Christmas Mr. Lawrence



Hoje, não quero ouvir palavras. Quero sentir sons.

Ponto a ponto, passo a passo

Uma vez, falaram-me que os trabalhos manuais são uma óptima oportunidade para reflectirmos. Concordo mas sei que pode ser completamente ao contrário. Muitas vezes, são a única maneira de colocarmos uma pausa em certos pensamentos ao concentrarmo-nos completamente no que as nossas mãos estão a fazer. São, por isto, uma óptima terapia. Mas quer tenha bons ou maus dias, eu não dispenso, por exemplo, os fios. Ponto por ponto, transformar o fio em algo que queremos construir faz-me sentir bem e sonhar que a vida também é assim, feita de pequenos passos que todos ligados nos permitem construir o que queremos.

A vida a fugir da não vida



“I went to the woods because I wished to live deliberately, to front only the essential facts of life, and see if I could not learn what it had to teach, and not, when I came to die, discover that I have not lived.” Henry David Thoreau

Bloqueio

Verbo e nome. Mais nome que verbo. Contra a acção. Interior e exterior. Singular ou plural. Temporário ou permanente. Pensamento excessivo. Com receio do que poderá vir a acontecer. O permanecer para conservar algo. Necessidade de tempo. Intervalo ou possibilidade de paragem no tempo. A pressão exterior pode ser a causa. Um interior que se sente diferente. Avisos, alertas. Dúvidas acumuladas. Mas no fim, algo claro: existem as ideias que nos colocam na cabeça e que repetimos em cada gesto e pensamento. Somos fantoches. O bloqueio é talvez um intervalo lúcido. Vou bloquear e não volto a reiniciar tão cedo.

Pensamento, dúvida, conhecimento...

Unidade

Tudo na vida é caminho
nalgum sentido traçado
e não há passos em falso
até esses têm sentido
num amanhã ainda opaco.

Os ziguezagues que fiz
não os dou por incidentes
a desviar o meu rumo;
enquanto perdi o tempo
ganhei ciência de amá-lo
agora que vale a pena.

Nenhum poder que disperse
esta profunda constância
de ser em cada momento
aquele que sempre teve
um só rosto verdadeiro.

E sempre nas minhas veias
o mesmo calor do sangue
e sempre o mesmo horizonte
ainda que vago na bruma
e esta sede sempre viva
dum bem que sempre ansiei.



Adolfo Casais Monteiro

Fragmentos

...e procuro novos horizontes.
Traço rotas...
...e surpreendo-me com o que não aparece em mapas...
...mas que nos fala muito sobre o Mundo.
Reflectindo sobre o que vejo...
...e com o encanto nos olhos, mesmo quando o tempo é incerto.
Contemplando o passado...


...e o que nos aparece de surpresa ao virar da esquina.

No final, a certeza de que, ao contrário do que nos querem fazer acreditar, não existem sentidos únicos.

A Febre

A primeira peça de teatro a que assisti contava com a interpretação de João Reis. Ontem, em mais um dia do Teatro, voltei a "encontrar-me" com um grande actor. Uma hora e meia sozinho em palco com um texto de Wallace Shawn, The Fever. O tradutor, Jacinto Lucas Pires, é claro no que esta peça provoca a quem está na plateia : "Uma peça que não nos apanha pela "empatia" costumeira das ficções, antes por esta horrível "cumplicidade" no crime. No crime da injustiça, da desigualdade, da desesperança." E continua "nunca nos sintamos apenas, e oh tão confortavelmente, "espectadores". Não, aqui estamos dentro da "história", não viemos do nada e não estamos no meio do nada, somos "actores". E, portanto, em consequência, saindo daqui, não teremos de agir?"


Mas do que se fala nesta peça? Fala-se de um mundo, o nosso mundo, em que enquanto uns festejam outros são torturados longe da vista dos primeiros para que a "festa" não seja estragada. Em que uns reclamam para si sempre o melhor e outros nem sequer têm voz. Mas o melhor é ler, vale a pena. O texto está aqui.

Foz Côa


No caminho...

...para maravilhar-me com amendoeiras...

...fui surpreendida por paisagens incríveis...

...que foi difícil abandonar.

Recuei muito tempo...

...procurei as origens...

...e fui encontrando respostas e...

...verdades das quais nos esquecemos tantas vezes...

...as quais muitas vezes não admitimos...

...ou nas quais deixamos de acreditar.

Mas encontram-se sempre surpresas no caminho. Por isto, é preciso não deixar de acreditar.

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