O olhar do amigo é uma âncora
“Há
um provérbio que diz: «Viver sem amigos, é morrer sem testemunhas.» Os
amigos trazem à nossa vida uma espécie de atestação. Os amigos sabem o
que é para nós o tempo. Eles testemunham quem somos, que fizemos, que
amamos, que perseguimos determinados sonhos e que fomos perseguidos por
este ou aquele sofrimento. E fazem-no não com a superficialidade que, na
maior parte das vezes, é a das convenções, mas com a forma comprometida
de quem acompanha. O olhar do amigo é uma âncora.”
José Tolentino Mendonça, in «Nenhum caminho será longo»
Sombra
Sou a sombra da opressão, um grito colado à parede.
Sonho ser a sombra de um pássaro quando se liberta de uma gaiola. Ser aquele que lhe duplica o acto e aplaude, assim, a liberdade.
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| Inês Aparício, Lisboa, 2014 |
Países rápidos e lentos
"No nosso país", disse Alice..."consegue chegar-se a qualquer lado se se correr muito depressa..."
"Isso é um país um bocado lento" disse a Rainha Vermelha. "Aqui, vê tu, é necessário correr ao máximo para se conseguir ficar no mesmo sítio."
"Isso é um país um bocado lento" disse a Rainha Vermelha. "Aqui, vê tu, é necessário correr ao máximo para se conseguir ficar no mesmo sítio."
Lewis Carroll, Alice através do espelho: O que Alice lá encontrou
A viagem mental
Começo a viajar desde o momento em que a possibilidade o vir a fazer se torna uma ideia. A partir daí, a minha cabeça deixa de estar aqui e passa a estar dividida entre o aqui e o lá. E os meus olhos confirmam que "a visão tem esse estranho poder de olhar para um lugar e ver outro, ver algo completamente diferente, os olhos não olham sempre para o presente" (Afonso Cruz). Afinal, começamos pela viagem mental para chegarmos à física.
Neste momento, estou numa viagem mental. É o tempo de povoar a mente de coisas que vão ajudar os olhos a ver melhor. E, como os olhos vão repetir sítios, espero que se lembrem que, como afirmou Heidegger: "Aquilo que se repete, pensa-se duas vezes".
Exercício espiritual
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| (instagram: @inesaparicio) |
Da vida, dizem que cada um deve olhar pela sua. Da experiência, aconselham a aprender com a vida dos outros. Do vôo, asseguram que só com a experiência. De viver, avisam que só vale a pena fazê-lo a voar com os outros.
Se cairmos? Não há problema, um dia não nos vamos mesmo levantar.
Até lá, vamos voar.
Consequência do mundo moderno
A necessidade de um pensamento puro, é isto que sinto.
Um pensamento livre de todo o barulho que entra em mim.
Quero ser só eu e os meus sentidos.
Calem-se, por um segundo.
Um pensamento livre de todo o barulho que entra em mim.
Quero ser só eu e os meus sentidos.
Calem-se, por um segundo.
Epitáfio
Cada sorriso teu agora só desperta
este remorso vil que a minha vida tem:
- A tua alma estava à minha espera, aberta...
Repousei no teu corpo e não fui mais além.
este remorso vil que a minha vida tem:
- A tua alma estava à minha espera, aberta...
Repousei no teu corpo e não fui mais além.
David Mourão-Ferreira
Um dia...
Existem coisas que não têm uma explicação clara. O meu encanto por Florença é assim. Nunca lá fui e o que sei dela não passam de ideias vagas. Propositadamente, não quero ler e ver muito sobre Florença. Quero que seja ela a contar-se a mim. Quando a viver, não sei se vai haver quebra de encanto. Mas o certo é que as viagens começam muito antes da partida física e eu já há muito que parti para Florença.
Um dia, vou lá buscar-me ou então ficar para sempre.
Um dia, vou lá buscar-me ou então ficar para sempre.
Impressão digital
Os meus olhos são uns olhos,
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.
Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.
Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras e pisadas,
mas outros, gnomos e fadas
num halo resplandecente.
Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D.Quixote vê gigantes.
Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.
António Gedeão, in Movimento Perpétuo
Vik
«O cérebro não colhe ideias no canteiro do ócio. É sobretudo pela intersecção com o material, pelo trabalho, pelo esforço e, em última instância, pelo fracasso, que nós nutrimos o nosso banco de ideias.» Vik Muniz
Imagine
Imagine there's no countries
It isn't hard to do
Nothing to kill or die for
And no religion too
Imagine all the people
Living life in peace
It isn't hard to do
Nothing to kill or die for
And no religion too
Imagine all the people
Living life in peace
John Lennon
Repetição
Uma pessoa a falar, uma pessoa a repetir a mesma palavra. A mesma palavra repetida e repetida. A palavra dos outros que torna a pessoa nas outras pessoas. Silenciamos estas pessoas na nossa cabeça para sabermos da música de fundo: "a urgência de agarrar qualquer coisa para mostrar que afinal nós também temos mão na vida, nem que seja à custa de a vivermos fingida...". Desligam-se as pessoas e ouve-se a música. Limpam-se os ouvidos das mentiras com as palavras que as explicam.
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Sou a sombra da opressão, um grito colado à parede. Sonho ser a sombra de um pássaro quando se liberta de uma gaiola. Ser aquele que lhe dup...



